Linha de contexto: Uma reflexão introspetiva sobre a subjetividade da perceção humana, o escapismo face à adversidade e a forma como a mente constrói ativamente a sua própria prisão e o seu próprio caos.
Tendemos a ver a realidade com base no que somos e como entendemos o mundo. Não existe uma imparcialidade no que entendemos, porque cada um de nós vê a realidade segundo os seus olhos e a sua perceção do que nos rodeia. Desta forma, a realidade que vemos é a projeção que idealizamos com base no que sentimos e no que entendemos que esta seja, e não a realidade ela própria.
Se víssemos a realidade como esta é, e não como nós percecionamos que esta seja, não seríamos suscetíveis à manipulação e a inverdades, porque existiria certeza no que aprendemos. Facilmente a mente é manipulável, porque somos abertos a crer nos mitos, nas lendas e nas ilusões. Temos mentes que estabelecem critérios, parâmetros e factos, mas também alimentamos a fantasia e o desejo do que um dia seremos e do futuro que teremos. Esse é o sonho do ser humano, que permite a sua evolução e, ao mesmo tempo, a sua estagnação. Para visualizarmos a realidade, teríamos de ser simples recetores do mundo e não emissores ativos, capazes de alterar o próprio mundo onde vivemos e a realidade que compreendemos numa outra realidade que se coaduna com a nossa ideia dela.
Tendemos a fugir da realidade quando esta nos é adversa ou simplesmente não a compreendemos; por isso, alimentamo-nos da fantasia, de filmes onde tudo termina bem e a princesa sobe para o cavalo branco com o seu príncipe, ou onde somos os heróis que matam todos os maus. Lemos livros para compreendermos o mundo nas palavras e fugimos dele na nossa presença e passagem por ele.
Que mais não é do que tudo o que criamos, senão uma tentativa de alterarmos na nossa mente a realidade lá fora? Quanta da realidade é feita por nós no conjunto do que fazemos! Criamos o caos e receamo-lo.
Somos arquitetos da nossa própria cegueira e negamos que somos o nosso maior mal. Somos, em vida, do início ao final, os nossos próprios carcereiros.

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