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A Folha

  Linha de contexto:  Há dias em que o olhar se perde no branco e a mente ferve num vulcão silencioso. Entre o turbilhão das ideias que se recusam a tomar forma e a página que aguarda, esconde-se o limbo do criador. Uma reflexão sobre o peso do pensamento e a arte de parar antes de escrever.  Olho para a folha vazia e todas as palavras poderiam estar nela, mas estarão somente as que escolher. O olhar contempla o vazio, o nada e o misto de pensamentos que se negam a ter forma e a dar corpo a uma frase que seja, mas que nesse estado abstrato, imaterial e profundo corre um rio de muitas coisas que se misturam, se mostram, mas que não se unem, como se todas pudessem sair ao mesmo como a explosão de um vulcão, significando tudo só por si mesmas e que em conjunto não fizessem sentido. A folha branca aguarda para ser desvirginada pela razão e raciocínio, ainda donzela do texto, pontuação e imagens que poderá conter. Como uma peça de barro pronta a ser moldada pelo oleiro que per...

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A Folha

Linha de contexto: Há dias em que o olhar se perde no branco e a mente ferve num vulcão silencioso. Entre o turbilhão das ideias que se recusam a tomar forma e a página que aguarda, esconde-se o limbo do criador. Uma reflexão sobre o peso do pensamento e a arte de parar antes de escrever. 


Olho para a folha vazia e todas as palavras poderiam estar nela, mas estarão somente as que escolher. O olhar contempla o vazio, o nada e o misto de pensamentos que se negam a ter forma e a dar corpo a uma frase que seja, mas que nesse estado abstrato, imaterial e profundo corre um rio de muitas coisas que se misturam, se mostram, mas que não se unem, como se todas pudessem sair ao mesmo como a explosão de um vulcão, significando tudo só por si mesmas e que em conjunto não fizessem sentido.

A folha branca aguarda para ser desvirginada pela razão e raciocínio, ainda donzela do texto, pontuação e imagens que poderá conter. Como uma peça de barro pronta a ser moldada pelo oleiro que permanece imóvel, em cima da roda pronto para ser a finalização do pensamento do seu criador.

O nevoeiro que se gera entre a folha e a origem das palavras é como um muro de hesitação e objetividade, é a incerteza do final. A folha aguarda sem sentido, sem sentimento, como o escorrer do primeiro orvalho pela manhã entre o cantar dos pássaros, o coaxar das rãs e o barulho do restolhar nas copas das árvores ao seu redor. 

A folha viu tanto e sentiu tanto e agora permanece imóvel, a aguardar que palavras sejam depositadas para lhe dar valor, sem que quem preenche o vazio da folha saiba o valor verdadeiro da vida que a folha teve. Coloca o conhecimento na folha sem saber do mar de conhecimento que na folha está contido somente pela presença da folha em cima da sua mesa.

No entanto a folha continua vazia e o seu olhar continua distante, olhando para nada. Tanto para dizer e nada para escrever. Sabe onde está, mas está perdido, parado, como um pescador que lança a linha e aguarda que o primeiro peixe morda o isco.

Pousa a esferográfica e levantando-se, abandona o seu lugar de criador de formas do pensamento ainda com o pensamento ao longe, meio cá meio lá. 

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