Linha de contexto: Uma reflexão sobre a passagem do tempo, a nostalgia de quem fomos e a impossibilidade de regressar aos lugares e estados de espírito onde já fomos felizes. Hoje levantei-me a pensar no que fui, no que sou e no que serei. Todos eles incertos para mim próprio, como para qualquer um de vós, já que não temos controlo da nossa vida, esse controlo é uma ilusão. Por mais passos atrás que demos, jamais seremos quem fomos um dia, o tempo e a ação do exterior impede-nos de nos resumirmos a esse ser anterior e desejado. É a viagem do tempo dentro de nós que é impossível, pois quem fomos jamais podermos voltar a ser, somos nós que não o permitimos. É como se tivesse acordado com saudades de mim próprio, da inocência, da curiosidade do amanhã, sem os erros, sem arrogância de pensar que sabermos é sempre a mais válida do falso conhecimento, sem todas as inverdades que nos dizemos a nós mesmos para nos desculparmos de sermos somente falíveis. Sinto falta dos sítios, mas...
No princípio era eu e a minha sombra, dependente de mim e espontânea pela luz que me alumiava.
A minha sombra que depende em tudo de mim, não depende da minha vontade para existir, não é autónoma na locomoção, mas sem a minha existência não existe.
A Sombra existe porque é um "reflexo de mim" mas não é eu. É uma cópia do estado e tempo em que existo, mas não representa a verdade de mim. A minha sombra não existe sem a luz, ainda que seja a representação da noite, esta existe pela ação do dia.
Pulo e brinco com a sombra, mas ela finge que brinca comigo imitando os meus passos e as formas que descrevo no ar. Embora na minha vontade estejam refletidos os sentimentos e sensações, a minha sombra é fria e mexe-se provocada pela luz que passa ao meu redor.
Eu e a minha sombra somos um só.

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