Somos a nossa própria singularidade. O ponto de partida e o local de chegada. A alegria e o desespero. A casa cheia e a solidão. Enquanto vivemos tentamos obter reconhecimento da nossa própria existência, o testemunho do ar quente expelido dos pulmões. Por mais que caminhemos nunca poderemos deixar-nos a nós próprios, seremos sempre o eterno amigo que nos acompanha e único ser que nos ama incondicionalmente, aquele que nos conhece e nos aconselha e nos critica. Enganamo-nos para que a vida seja mais suportável, preenchemos os espaços com a importância de que nada representa para nós e dizemos chamar-se felicidade. E é nos momentos a sós que olhamos para dentro do que é a alma e esta nos mostra que por mais que corramos, por mais que nos aqueçamos nos braços de outras pessoas, por mais que sejam os beijos roubados, as manhãs de chuva na cama, ou o escutar mil vezes das aves no quintal, no fim seremos somente nós que estaremos porque somos a nossa própria singularidade. E aí lembra...
No princípio era eu e a minha sombra, dependente de mim e espontânea pela luz que me alumiava.
A minha sombra que depende em tudo de mim, não depende da minha vontade para existir, não é autónoma na locomoção, mas sem a minha existência não existe.
A Sombra existe porque é um "reflexo de mim" mas não é eu. É uma cópia do espaço e tempo em que existo, mas não representa a verdade de mim. A minha sombra não existe sem a luz, ainda que seja a representação da noite, esta existe pela ação do dia.
Pulo e brinco com a sombra, e ela finge que brinca comigo imitando os meus passos e as formas que descrevo no ar. Embora na minha vontade estejam refletidos os sentimentos e sensações, a minha sombra é fria e mexe-se provocada pela luz que passa ao meu redor.
Eu e a minha sombra somos um só.

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