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A singularidade

  Somos a nossa própria singularidade. O ponto de partida e o local de chegada. A alegria e o desespero. A casa cheia e a solidão. Enquanto vivemos tentamos obter reconhecimento da nossa própria existência, o testemunho do ar quente expelido dos pulmões. Por mais que caminhemos nunca poderemos deixar-nos a nós próprios, seremos sempre o eterno amigo que nos acompanha e único ser que nos ama incondicionalmente, aquele que nos conhece e nos aconselha e nos critica. Enganamo-nos para que a vida seja mais suportável, preenchemos os espaços com a importância de que nada representa para nós e dizemos chamar-se felicidade. E é nos momentos a sós que olhamos para dentro do que é a alma e esta nos mostra que por mais que corramos, por mais que nos aqueçamos nos braços de outras pessoas, por mais que sejam os beijos roubados, as manhãs de chuva na cama, ou o escutar mil vezes das aves no quintal, no fim seremos somente nós que estaremos porque somos a nossa própria singularidade. E aí lembra...

O verdadeiro eu

O verdadeiro eu

Linha de contexto: Uma breve reflexão filosófica sobre as máscaras que usamos em sociedade e a busca pela nossa essência

Quem afinal sou eu? Onde começo eu e se inicia o conjunto do que são as minhas memórias criadas com os valores de todos? Quem reside no fundo de mim mesmo? Aquele local de onde mostro o mundo que vejo e onde escondo o mundo que não quero mostrar. Se tirar o que partilho em comum com todos, todas as vontades e desejos. Todos os medos e receios, todos os ódios e raivas, toda a mesquinhez e bem falar. O que é que sobra no fim, que possa dizer que sou eu, o verdadeiro eu?

E se conseguisse saber o verdadeiro eu, como conseguiria viver com isso? Lá no fundo, lá bem no fundo, sou bom ou mau? E se sou mau, conseguiria viver comigo mesmo, ou seria um choque e apegar-me-ia aos valores e crenças de todos nós, retornando a ser o eu de sempre, sabendo quem realmente sou. Quando despojado do tudo de todos, onde estou eu?

Falamos regra geral das nossas qualidades e defeitos, mas tendemos a focarmo-nos mais nas qualidades e tocarmos ao de leve os que são os defeitos e quando falamos desses defeitos, apresentamo-los como questões superficiais, mas não mostramos realmente o que está escondido, aquilo que não contamos a ninguém, aquilo que nos faz ter receio de nós e dos outros em relação a nós. Porque sabemos que bem lá no fundo essa área cinzenta, zona de ninguém, é a parte proibida.

Esta zona de todos os medos, arquiva lembranças, raivas, ódios, que combatemos com a estrutura que levamos uma vida inteira a montar e a levemente dominar. No entanto, o que reside nesta zona, tem um poder demasiado grande no que somos e quem somos, e é por tal que às vezes se evadem vontades que mascaramos involuntariamente de evolução individual. Não nos damos conta que nos deixamos manipular por nós próprios.

Esquecemos, graças a tudo o que alcançamos e os progressos que construímos, que no nosso cérebro continua a existir o instinto animal, que de tempos a tempos, consegue iludir a razão, valores e moral, que edificamos e liberta no mundo, as guerras, o sofrimento e a indiferença em relação ao mundo que queremos melhorar, mas que acabamos por piorar.

No fim do dia, quando deito a cabeça na almofada, penso em quem sou realmente. Quem mora dentro de mim?


Imagem de Topo: Pixabay.pt


Tempo e Perspetiva

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