E quando eu morrer, quem me vai levar flores? Quem limpará a pedra que me protege do medo do depois, que me encerra no frio da eternidade, do silêncio das palavras, quem colocará a cortina que afasta o olhar dos vivos de mim, onde o nome, dinheiro e beleza já não importam.
Quem dirá, "foi um bom homem", teve as suas coisas, era humano e o sangue corria-lhe nas veias como em todos nós, que também aqui viremos morar. Uns mais tarde e outros demasiado cedo, entraremos no último desafio, aquele que será para sempre.
Quantos se lembrarão de mim, quando o tempo já se esticar e a memória for nesses já curta também.
E quando de mim já nada restar, o vento virá para levar esse fim de vida no pó de uma manhã, para que dê lugar a outras memórias, de outros homens.
Valeu a pena amar e ser amado, sabendo que o fim seria o vazio de mim mesmo, onde lembranças de uma vida, de nascimentos, casamentos e batizados, de convicção no coração que se alojava no peito, se foram, como o homem que as viveu.
Tudo uma questão de tempo e perspetiva, de deslindar o puzzle misterioso desta linha de vida, que se entrança e emaranha. Onde datas são números roçados que os livros não vão mostrar.
Quando disserem "foi um bom homem", será porque o sentem ou porque não se fala mal de quem já não se pode defender? Somente nessa altura poderia dizer quem foi meu amigo, pois serão aqueles que estarão presentes nesse último adeus, e serão eles que de tempos a tempos, numa piada ou regresso ao passado, dirão algo, porque algo os fez lembrar. Um cheiro, uma frase, uma questão.
A vida é o conjunto de todos os momentos que passamos, das barreiras que enfrentamos, dos sorrisos e tristezas. De cada vez que dávamos um passo e sentíamos o pulsar do coração, ritmado e consistente, a máquina do tempo que rege as alegrias e tristezas do homem. O relógio do bem-estar.
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